sexta-feira, novembro 04, 2005

O regresso de D. Sebastião

Se até há pouco tempo eram as eleições autárquicas que povoavam os telejornais e o imaginário de cada um, agora são as presidenciais que ocupam o lugar de destaque.
Nas autárquicas assistimos a quase tudo o que possamos imaginar. De facto, a nossa imaginação pôde soltar-se nestas últimas eleições, mas dificilmente venceu a realidade a que íamos assistindo. Há um caso que não posso deixar de citar. Carrilho tentou aproveitar o mediatismo da esposa, mas nem assim conseguiu ganhar a Câmara Municipal de Lisboa, esse aparente “trunfo” acabou por se tornar contra-producente, algo que julgo correcto, pois em campanha avalia-se a postura dos candidatos e não dos familiares ou amigos dos mesmos.
Já nas Presidenciais, valerá, por certo, a imagem de qualquer um dos candidatos, sendo certo que haverá um concurso de popularidade entre Mário Soares e Cavaco Silva. Penso que presenciaremos grandes debates televisivos entre ambos.
Quanto à candidatura de Cavaco Silva, já anunciada publicamente pelo mesmo, parece-me justificável. É interessante como Cavaco, antes mesmo de avançar, era o único candidato que ganhava, pelo seu silêncio e ponderação, enquanto que os outros lutavam contra algo que ainda nem sequer tinha avançado. Aníbal Cavaco Silva afigura-se como o Presidente certo para esta conjuntura política e economico-social; o seu perfil encaixa nas necessidades sentidas pela nossa pátria. Não nos podemos esquecer de que Cavaco está há dez anos a preparar o seu regresso à cena política activa, desde que perdeu as Presidenciais para Jorge Sampaio, enquanto que Mário Soares está há apenas alguns meses nesta corrida a Belém. Pessoalmente, creio que o país tem uma dívida de gratidão para com Cavaco.
O combate far-se-á, fundamentalmente, em duas frentes: Mário Soares e Cavaco Silva. Penso que Manuel Alegre, apesar de ter começado melhor do que Soares, não tem meios nem apoios para combater de igual para igual com os dois “gigantes”. Mas o que me parece mais grave para Soares é o facto de nem sequer conseguir manter a unidade dentro do partido. É certo que em 1985 Soares também não unia a esquerda, pois competia com Freitas do Amaral à direita, e com Zenha e Pintassilgo à esquerda. Todavia, a situação agora é bem mais delicada, sobretudo por dois motivos principais: Mário Soares já foi Presidente da República durante dez anos e também porque do outro lado, do centro-direita, surge um candidato de peso, Cavaco, o que deveria reunir mais esforços e consenso da esquerda e do PS quanto ao seu candidato. Penso que Mário Soares irá prejudicar muito a sua imagem se perder com Cavaco Silva, nesta altura da sua vida, será uma saída inglória dos palcos políticos nacionais.
Se analisarmos a situação política actual, é mais facilmente previsível uma coabitação pacífica e construtiva entre o governo de Sócrates e Cavaco Silva, do que propriamente entre o primeiro e Mário Soares ou mesmo Manuel Alegre, e muito menos entre o governo e Jerónimo de Sousa ou Francisco Louçã.
Uma análise curiosa à margem deste confronto entre Soares e Cavaco indica-nos que Jerónimo de Sousa vai “esmagar” Francisco Louçã. Jerónimo é simpático e congrega muita gente à esquerda, foi uma agradável surpresa que revigorou o Partido Comunista. Já Francisco Louçã demonstra-se arrogante e intelectualmente sofisticado, transpondo facilmente a fronteira do político para o lúdico. Como diz um amigo meu, o “fenómeno Louçã” vai demonstrar que o Bloco de Esquerda não tem consistência.
Voltando a Cavaco, este é intelectual e politicamente sério, incorruptível e vai querer fazer reformas na sociedade portuguesa. Desde que o governo deixou de ter controlo na economia que a crise começou a instalar-se e só Cavaco pode ajudar neste aspecto, porque é um homem de finanças e trará de volta a confiança ao sector económico. Apesar de sabermos que o Presidente da República tem competências bem definidas na Constituição e limitadas, também é notório que o Presidente pode e deve exercer um magistério de influência, projectando um ponto de equilíbrio no país.
Por último, é digno de se registar que, pela primeira vez, a comunicação social não está contra Cavaco, nem contra a direita. Talvez muita dessa comunicação social se queira redimir das muitas vezes em que não foi totalmente isenta, prejudicando claramente alguns candidatos. Esperamos que assim se consiga manter, isenta e verdadeiramente informativa, até ao final da campanha.

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