sexta-feira, dezembro 02, 2005

Vidas Interrompidas

Quatro de Dezembro de 1980. Este é um dia que ficará para sempre na história e na memória de muitos, apesar dos vinte e cinco anos que o separam dos dias de hoje. Foi neste dia que Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e outros cinco ocupantes do Cessna faleceram, na sequência do polémico “acidente” de Camarate. Esta é uma tese que não chegou a convencer, mas que, infelizmente, tem vindo a vencer. Mas não é esta a questão que quero abordar neste artigo.

Sá Carneiro merece o mais justo tributo, que, do meu ponto de vista, seria o apurar da verdade acerca dos trágicos acontecimentos que conduziram à sua morte e dos demais companheiros. Mas enquanto isso não for feito, resta-nos recordar quem foi este Homem.

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro nasceu na Invicta a 19 de Julho de 1934. Com apenas 22 anos, concluiu o curso de Direito, na Universidade de Lisboa, e principiou de imediato a sua actividade profissional, exercendo advocacia na comarca do Porto.

No ano de 1969, foi eleito deputado independente à Assembleia Nacional, na Ala Liberal, durante o regime de Marcello Caetano, em nome da defesa dos direitos do Homem, da instauração de um regime democrático e da efectivação das liberdades públicas. Verificada a óbvia ausência de condições políticas para prosseguir o seu projecto, renunciou ao mandato a 2 de Fevereiro de 1973. Todavia, Sá Carneiro nunca baixou os braços, destacando-se, após este período, com a sua coluna no jornal Expresso "Vistos", cuja publicação foi rareando, pelas crescentes dificuldades impostas pela censura.

Em Maio de 1974, em conjunto com Francisco Pinto Balsemão e José Magalhães Mota, Sá Carneiro fundou o Partido Popular Democrata (PPD), hoje Partido Social Democrata (PSD) e assumiu as funções de Secretário Geral. Foi também ministro-adjunto do Primeiro Ministro no I Governo Provisório, chefiado por Adelino da Palma Carlos. Em 1975 foi eleito novamente deputado à Assembleia da República, mas não chegou a exercer o seu mandato, desta feita por motivos de saúde. No ano seguinte, voltou a ser eleito deputado e nesse mesmo ano assumiu a chefia da bancada parlamentar do partido do qual fora um dos fundadores. E Sá Carneiro continuava em clara ascensão. No IV Congresso do partido, em Outubro de 1976, foi eleito presidente do PPD, contudo a convivência dentro do partido nem sempre foi pacífica, pelo que, em Novembro de 1977, e na sequência de convulsões internas, demitiu-se do cargo de presidente. No ano seguinte, mais precisamente em Janeiro, no V Congresso, realizado no Porto, afastou-se voluntariamente de qualquer cargo directivo, tendo sido eleito para o Conselho Nacional.

Em 5 de Julho de 1979, Sá Carneiro, em colaboração com Freitas do Amaral, do Centro Democrático Social (CDS), e Ribeiro Teles, do Partido Popular Monárquico (PPM), além dos Reformadores, formou uma coligação pré-eleitoral que designaram de Aliança Democrática (a famosa AD), a qual liderou com o objectivo de derrotar a "maioria de esquerda", nas eleições legislativas intercalares de Dezembro de 79, após a dissolução da Assembleia da República. O seu propósito foi bem sucedido e, após conseguida a maioria absoluta da AD nessas eleições, Sá Carneiro foi chamado a formar Governo, tornando-se Primeiro Ministro.

Todavia, mais uma vez, Sá Carneiro entra em rota de colisão, não concordando com a recandidatura de Ramalho Eanes e afirma que se demitirá do cargo de Primeiro Ministro, caso este seja eleito. É de frisar que a AD apoiava o general Soares Carneiro.

Nas vésperas das eleições presidenciais, quando se deslocava para o Porto, onde iria participar no comício de encerramento da campanha presidencial, Sá Carneiro e Amaro da Costa foram vítimas de uma lamentável tragédia. Nesse dia, dois grandes vultos nacionais desapareceram do nosso quotidiano, levando consigo os projectos e as ideias que, por certo, implementariam e boa parte da continuação da estável alternativa que generosamente ofereceram ao país.

Sá Carneiro comungava dos mais saudáveis ideais, como a sua “inalienável fidelidade aos valores da liberdade, da democracia e da justiça”, tudo em nome de uma “luta em defesa da dignidade da pessoa humana e de um Portugal renovado, moderno e próspero” e definia a política do seu governo como sendo “por natureza humanista no projecto, portuguesa na raiz e europeia na vocação” e com o objectivo de “contribuir para a edificação de Portugal democrático”, através de um “processo de revitalização da sociedade civil” e do fomento do “reencontro entre o Estado e os cidadãos”. Almejava permitir aos Portugueses “ter consciência da sua identidade nacional e orgulhar-se de uma Pátria justa, pacífica e próspera”.

É dessa determinação que necessitamos agora, para a construção de um país mais justo, equilibrado e fraterno, na qual creio firmemente que a juventude terá um papel crucial. Há que romper com uma “cultura de esquerda” que nos vem, paulatina mas solidamente, invadindo e que não tem dado os melhores frutos, como todos temos visto; é agora o momento da direita em Portugal se afirmar e apresentar novamente ao país uma alternativa credível, como corajosamente o fizeram Sá Carneiro e os seus companheiros.

Questiono-me frequentemente do impacto que teriam tido estes homens no nosso país, se não fossem tão prematuramente roubados à vida. Camarate foi o roubo de um sonho que comandava Portugal!




As expressões em itálico são excertos do «Discurso do Primeiro-ministro, Dr. Sá Carneiro, na Apresentação do Programa do VI. Governo Constitucional»

0 Comentários:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home