segunda-feira, março 06, 2006

O Nome da Rosa

Poderia estar a referir-me ao best-seller do escritor Umberto Eco, livro aliás cuja leitura recomendo, mas não estou.

O nome da Rosa, neste preciso momento, resume-se a este: Sócrates. Também não estou a falar do sábio grego. Poucas semelhanças encontro entre o sábio grego, que ensinava, filosofava e sabia ouvir os outros, e o engenheiro Sócrates, nosso Primeiro-Ministro, que não dialoga, pouco ensina e não ouve ninguém.

Sensivelmente um ano passou desde a expressiva vitória nas Legislativas que deram a José Sócrates e ao PS a maioria absoluta. Depois disso, vieram as Autárquicas de Outubro, onde o PS bebeu amargo sumo de laranja nas principais cidades do país. Ainda não refeitos, quiçá, desta derrota, Sócrates e o seu partido vêem o candidato que apoiavam ser literalmente cilindrado por Cavaco Silva. Pior ainda, o não alinhado (ou desalinhado) candidato-poeta, Manuel Alegre, dirigente histórico do PS, candidato dito independente (de partidos políticos, entenda-se) consegue também ele esmagar Soares, o eterno candidato do PS (e digo eterno porque enquanto viver há-de sempre ser candidato a qualquer coisa… há (maus) hábitos que persistem… e desconhece-se a palavra ‘rotatividade’). Sócrates vê assim cair por terra, além de muitas outras coisas, o sonho roubado a Sá Carneiro de ter uma Maioria, um Governo, um Presidente. O Presidente não tem, a Maioria vai tendo e Governo também não tem, tem sim um Desgoverno.

Numa coisa temos de dar a mão à palmatória: Sócrates não tem problemas de digestão e tem gerido com punho de ferro todas estas pesadas derrotas que o partido tem sofrido. Reconheço-lhe resistência, habilidade e um certo pragmatismo.

É certo que o nosso Primeiro-Ministro anda entusiasmado com o seu choque-tecnológico e com mais um punhado de medidas que pretende implementar, mas os fait divers têm sido mais do que muitos também… lembro-me particularmente da visita de Bill Gates a Portugal e no mediatismo que isso criou. Não retiro importância ao senhor, que considero notável, mas questiono se este tipo de propaganda não servirá para inglês (ou português, neste caso) ver e para nos distrair, enquanto não pensamos nos verdadeiros problemas que o país atravessa.

A Rosa de Sócrates também tem espinhos bem cravados na pele. Vivemos num país estigmatizado pela devastação provocada pelos incêndios florestais e por uma taxa de desemprego galopante, entre muitos outros problemas. Só ele não se apercebe disso. Ou talvez até se aperceba, mas não queira que os outros se apercebam. É notório que se vive num clima de arrogância e insensibilidade, por parte do Primeiro-Ministro. Do alto da sua maioria absoluta, ele não ouve, não procura consenso, não esclarece. Nem o mais apurado otorrinolaringologista pensou que uma maioria absoluta ensurdecesse tanto alguém. Afinal ensurdece.

Sócrates ainda conseguiu andar de muletas… Os portugueses, qualquer dia, nem de muletas andam.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home