segunda-feira, maio 15, 2006

Ser ou Não Ser

Ser ou não ser Português, eis a questão. Se, por um lado, há uns dias, ouvia com orgulho um petiz na televisão afirmar que queria que Portugal ganhasse o campeonato europeu de futebol porque era Português, sorrindo ao afirmar a sua nacionalidade, por outro, ouvi com bastante decepção a confirmação da desonestidade do Governo, que celebrando um Acordo com a Maternidade de Badajoz, contrariando o que anteriormente dissera, vai permitir que os nascituros de Elvas tenham de se dirigir para Badajoz, para nascerem em solo espanhol. Não se pense que se trata de qualquer aversão ao país vizinho. Somos ibéricos, europeístas, devemos cooperar, mas não tanto ao ponto de abdicarmos da nossa nacionalidade e da nossa “raça lusitana”. Não imagino sequer uma situação inversa, o governo espanhol querendo que as suas grávidas dessem à luz em Portugal. E não imagino porque é perfeitamente descabido.

O argumento utilizado é o de que a saúde pública das parturientes e dos seus rebentos pode estar em causa. Assim parecem apontar os relatórios encomendados pelo Governo. Então não se compreende como se pretende aumentar a distância quilométrica e temporal entre as grávidas e as maternidades ou salas de partos. Tudo isto parece condenar muitos bebés ao nascimento precário numa ambulância, assistido por um médico, enfermeiro ou mesmo bombeiro, num qualquer quilómetro de auto-estrada ou de via-rápida. Se é verdade, como afirma o Sr. Primeiro-Ministro, que algumas instalações não têm condições, pois então que se dotem essas mesmas instituições de condições, em vez de se gastar dinheiro em projectos megalómanos, alguns deles que nem passam sequer do papel ou da sofisticada apresentação powerpoint, símbolo do tal ‘choque tecnológico’, que, afinal de contas, não chocou ninguém… Ainda há alguns dias assistimos ao desmoronar de um projecto que o Governo tinha anunciado em Dezembro, querendo mostrar trabalho, sem sequer conhecer pormenores do mesmo. Não vale a pena anunciar apenas por anunciar. Vale mais dizer pouco e fazer mais, é precisamente isso que os relatórios da OCDE indicam: Portugal anuncia muito e anuncia, muitas das vezes, medidas boas, mas muito raramente as põe em prática…

Voltando à questão das maternidades, parece-me igualmente descabido que se encerrem maternidades no Norte e no Interior. Não é assim, em primeiro lugar, que se constrói uma política de natalidade (embora muitos achem que sim…), e também não é assim, em segundo lugar, que se combate a interioridade e o êxodo rural sentido no interior do país. Retirar a quem já tem tão pouco e se sente, por vezes, menos Português, porque paga impostos como os outros, mas não tem vias de comunicação decentes nem médicos perto, por exemplo, parece querer mesmo desertificar essas zonas. É que não é só a Maternidade ou a sala de partos local que encerra. Com elas encerra todo um conjunto de actividades económicas que vivem em redor, gera-se ainda mais desemprego. Todos sabemos que existem sempre uns cafés, uns restaurantes por perto, para que pessoal médico e hospitalar e familiares das parturientes possam tomar uma refeição, beber um café… Com o encerramento das Maternidades é vida que se perde: Vida que deveria nascer tranquila e nasce ou em Espanha ou aos sobressaltos dentro de uma ambulância e vida económica que serve de alento a muitas populações, que vendo algumas actividades económicas encerradas também passam a viver em aldeias e vilas-dormitório, onde o tempo custa a passar, onde não têm nada para usufruir, sítios onde o pêndulo do relógio tem tendência a ir parando para os mais velhos e a acelerar para os mais novos, que, rapidamente, procurarão melhores condições de vida noutro sítio.

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