Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Caricaturas e Castigo















Estas imagens são de uma criança iraniana que roubou pão para comer e está a ser castigada por isso... perante isto, INDIGNAM-SE ELES COM AS CARICATURAS DE MAOMÉ???

O que TAMBÉM me preocupa, a nível interno, é o silêncio do nosso Primeiro Ministro acerca deste assunto. Não abordando o facto in se (o disparate e o circo que se armou à volta de tudo isto), devo dizer que o silêncio ensurdecedor do nosso PM revela a sua sábia e hábil estratégia de se esquivar a comentar o que quer que seja, na esperança de passar despercebido e de não entrar em grandes polémicas que afectem o seu mandato.Mas devo também dizer que silêncio, enquanto cidadã portuguesa, me entristece, porque tenho um PM que se coíbe de tomar posição acerca de coisas como esta que se passam num mundo como o de hoje, onde somos cada vez mais cidadãos de uma aldeia global!

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

Têxteis: Marques Mendes acusa ministro da Economia de desprezar sector

Famalicão, 15 Fev (Lusa)

O líder do PSD, Luís Marques Mendes, acusou hoje o ministro da Economia, Manuel Pinho, de "desprezar o sector têxtil e as suas associações empresariais".

"A atitude de desprezo deste Governo pelo sector têxtil é muito negativo", afirmou Marques Mendes em Famalicão, frisando que "são várias as associações que se queixam que o ministro não tem tempo para as receber, ou seja, não tem tempo para as ajudar a dar vazão aos problemas".

O do líder do PSD falava aos jornalistas no final das visitas que fez à empresa de confecções Ímpetus de Esposende e ao Citeve - Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e do Vestuário de Vila Nova de Famalicão.

A deslocação de Marques Mendes insere-se num conjunto de "semanas" de carácter temático, a primeira das quais englobou contactos com os parceiros sociais e a segunda com o sector da justiça, sendo a actual dedicada ao sector têxtil , do vestuário e do calçado.

Marques Mendes acentuou que "o sector têxtil é um dos mais importantes da economia nacional, envolvendo 200 mil postos de trabalho e um grande volume de exportações, pelo que não pode ser desprezado pelo Governo".

Lembrou que "grande parte da indústria está concentrada no Vale do Ave e na Beira Interior, com empresas boas e competitivas, mas com outras em grande dificuldade", sublinhando que "a sua modernização é fundamental para a economia nacional e para a coesão social".

"A taxa de desemprego no Vale do Ave atinge os 14 por cento, quase o dobro da média nacional, que é de oito", lembrou, acusando Manuel Pinho de andar em anúncios e cerimónias de propaganda, mas esquecendo o país real e as empresas que precisam de ser estimuladas para exportarem mais.

Marques Mendes aproveitou para sugerir ao Governo que sensibilize os investidores estrangeiros que vierem a concretizar as suas intenções em Portugal para se instalarem no Vale do Ave ou noutras regiões do país, onde "há um grande problema social de desemprego e que precisam de apoio ao seu desenvolvimento".

Questionado sobre o projecto de encerramento de escolas do Ministério d a Educação, Marques Mendes disse que a questão "não pode ser decidida de forma tecnocrática em Lisboa".

"É preciso actuar com muito cuidado e, sobretudo, em articulação com as autarquias locais que conhecem a realidade territorial e social e a evolução dos alunos que frequentarão as escolas", defendeu, recomendando "muita cautela, dado que estão em causa decisões que afectam muitas regiões".

LM.
Lusa

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

Muriel

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramentee na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependiado momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
Ruy Belo