quarta-feira, agosto 08, 2007

'Silly Season' *

Após algum tempo de ausência, motivada pelo trabalho e por outras actividades que iniciei, eis que não consigo ir de férias sem antes partilhar com os leitores algumas reflexões. E aproveito também para confessar as saudades que tinha em escrever algumas linhas. Posto esta introdução, traço algumas ideias sobre as quais me debruço, antes de partir rumo às apetecíveis e desejadas férias.


A silly season, como é designada por alguns, está aí. Com as temperaturas altas e os dias solarengos, chegam as férias, aqueles dias almejados durante todo o ano, em que a maioria de nós opta pelo descanso e por introduzir no seu quotidiano práticas que não tem durante o resto do ano.


Que assim seja no Verão, em período de férias, não me assusta particularmente. Afinal, o ser humano tem necessidade de quebrar a rotina e de variar um pouco, descansar, viajar, descomprimir, visitar outras paragens. Afinal de contas, as pausas servem para libertar o corpo e a mente do stress rotineiro que nos corrói no quotidiano.


O que realmente me assusta e não me deixa tranquila, é a apatia que de muitos se apodera, ao longo de todo o ano, ao abrigo da qual alguns se despem da sua veste de cidadania e se alheiam por completo ao mundo que os rodeia, ao país e à sociedade em que estão inseridos. E isso acontece quando, por exemplo, o telejornal não é seguido atentamente e quando passa a ser mais um acompanhamento do almoço ou do jantar, como se de uma salada se tratasse. Mas já que os corpos vão a banhos, sugeria que não colocássemos também de molho as nossas consciências críticas.


É importante não esquecer que vivemos num país onde professores com provas dadas são suspensos por fazerem piadas sobre governantes ou, quiçá pior ainda, são obrigados a trabalhar quando são portadores, devidamente comprovados, de doenças que os incapacitam para tal. Num país onde um governante classifica a Margem Sul como um “deserto”. Num país onde um Ministro sugere que os utentes devem pagar 25 euros por consulta médica, caso ultrapassem as três consultas por trimestre. Que raio será isto? Gosto por estar doente? Vício de esperar em longas filas, para onde se vai às 6h da manhã para conseguir uma consulta? Vivemos num país mergulhado na baixa natalidade, mas onde se fecham escolas e maternidades, enquanto se abrem clínicas de aborto. E até onde se sugere que as interrupções voluntárias da gravidez não paguem taxas moderadoras (mas não esquecer, mais do que três consultas por trimestre é que não...). E quando cremos que não pode piorar, eis que vem um Ministro sugerir, num debate, que se dêem os medicamentos fora de prazo aos economicamente desfavorecidos. Será isto a tão proclamada igualdade? Talvez não nos apercebamos, agora nesta época do ano em que reina a praia, o calor, os petiscos e a boa disposição, do estado a que Portugal chegou. O país conta com enormes fossos sócio-económicos, trapalhadas mal explicadas, impunidades caladas, vigarices abafadas. E todos os dias se desperdiça o potencial de tantos e tantos Portugueses. Sim, porque todos nós somos o Estado, mas não somos nós que dirigimos o Estado. Elegemos democraticamente quem o fizesse, mas a verdade é que estamos na presença de um condutor encartado sem experiência, que bate sucessivamente noutros veículos que com ele circulam na via pública, que faz manobras perigosas e abusa das ultrapassagens vertiginosas. Elegemos alguém que nem estacionar sabe, que não tem a humildade de inverter o sentido de marcha quando vai mal. E é a este condutor inábil que alguém tem de pôr um travão. A verdade é que a Oposição está desgastada e confusa, repleta de mudanças internas e de guerras e guerrilhas de liderança. Haverá alguém capaz de travar este desvario?


Que nos não deixemos adormecer, pelo menos que não deixemos as nossas consciências sucumbir ao calor e saibamos sempre acompanhar o que à nossa volta acontece. Votos de boas férias a todos.


* Em termos jornalísticos, é habitual chamar-se ao Verão a ‘silly season’. Traduzindo, quer dizer qualquer coisa como a ‘época louca’. E é assim porque, por ser época alta nos destinos turísticos, as notícias entram, por assim dizer, em época baixa e dão lugar às histórias bizarras, às curiosidades, ao inusitado… Enfim, dão lugar a tudo o que, normalmente, não seria notícia.

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