Por hoje chegou ao fim a minha luta contra o sono. Tentei resistir, mas ele vem caminhando compassada mas certeiramente. Eis que retiro a minha armadura, para descansar. Se bem me lembro, hoje é já a segunda vez que dela me dispo e exponho as fraquezas do meu ser. Pouso também a espada, porque desconheço o inimigo contra qual luto. Depois o arco e as flechas. Não pretendo atingir ninguém, para além de mim própria. Honestamente, nem sei porque vou à guerra. Talvez porque o meu feitio não me permite desertar, sem mais nem menos, nem desfalecer. Da convicção não há fugas, nem desculpas, nem subterfúgios. E sei que amanhã vou acordar e tornar a vestir a armadura, a embainhar a espada e a carregar o arco e as flechas. Parto, mais um dia, para a luta, numa guerra que sei perdida. Parto na ingenuidade e no encanto de talvez poder vencer uma batalha. Ou duas. Ou, quem sabe, embalada neste sonho, até mais. Parto para a guerra que sei perdida, vencida. Se desistisse não estaria a ser fiel a mim própria. Lutando mantenho-me fiel ao que sou, arriscando-me a sair ferida da luta. Mas não me interessa. Amanhã bem cedo, quando o dia raiar em mim, sei que me vou levantar e armada parto para mais uma batalha. Na face levo uma lágrima e no coração o sorriso de quem luta ainda por aquilo que sabe já perdido.